sábado, 3 de maio de 2014

Bilhete a uma pessoa amada


                                                    Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
                                                                                             Ficaram velhas todas as notícias.
 Eu mesmo envelheci.

                                Carlos Drummond de Andrade


          Pensei que nunca mais lhe escreveria. Eu o aborreço. Também há a namorada. Todavia, a saudade se me avassala, como um caudal dorido de lamentos... Gostaria de, mais uma vez, explicar-me, pedir desculpas, dizer coisas... Tantas foram ditas em meu nome e que são inverdades... Se me precipitei, por inexperiência, paguei caro e aprendi...
           Sonhos, acordada, já não os tenho. Lembranças, sim. São como pérolas que acaricio suavemente. Tesouros. Sempre que quero, recolho-me ao mais recôndito de mim. Minha memória percorre caminhos que eu escolhi e os meus olhos encontram os seus, mesmo estando fechados. Seu cheiro invade meu coração e o seu corpo vem até meus braços. Então eu o tenho meu novamente.  Aperto-o contra o meu peito e deixo o tempo escoar
          Hoje, depois daquela confusão toda, lembro de tudo; analiso e penso que sonhei demais. Sonhos meus, “que não copiei, nem furtei”, mas que estavam além do meu alcance.
          Você atravessou um dos meus desertos. Havia música e dança em seus passos. Um oásis com água fresca e um jardim de flores amarelas em seu falar. Vislumbrei paz e descanso em seus olhos e bati à porta de mim. Então, o sonho que dormitava lá dentro, ouviu em sua quietude, tal qual murmúrio de riachos entre colinas, o nascer de um sentimento. Que reclamou apenas seu próprio êxtase. Fizeram-se estrelas na minha noite e para ele desnudei minh’alma. (E esse sentimento, por ser imenso e vasto, transcendeu de mim, libertou-se e agora, sempre, palpita no espaço.)
          Assim, sonhei visitar seu eu e conhecer sua casa maior, contudo, havia vales profundos entre seu coração e o meu. Minha estação não era chegada, nem eram para mim a música, as flores, esse remanso...
          Um amor tão grande e restou apenas essa tristeza. Como um espinho doído, mas  tão fundo que nunca vou conseguir arrancar. Um amor tão grande e você nem percebeu. Nem se deu conta do quanto modificou a minha vida.
Lécia Freitas
                                                                                                           







Nenhum comentário:

Postar um comentário